Três cidadãos brasileiros estão enfrentando acusações graves relacionadas ao crime organizado depois que uma investigação da Garda teria descoberto uma rede que se estendia por 17 imóveis em diferentes partes da Irlanda, quase €3,5 milhões em supostos recursos provenientes de atividades criminosas e propriedades que estariam sendo utilizadas como bordéis.
Matheus Berberick, 35 anos, sua irmã Maria Berberick, 27, e Sander de Silva Pereira, 40, foram presos após uma investigação conduzida pelo Garda National Protective Services Bureau sobre tráfico de pessoas, prostituição organizada, manutenção de bordéis, lavagem de dinheiro e uso de documento de identidade falso.
Os três, que moravam na região de Tallaght, são acusados de fazer parte de uma operação criminosa organizada que teria utilizado imóveis alugados em diferentes regiões da Irlanda para facilitar a prostituição e gerar grandes quantias de dinheiro.
Nenhuma das acusações foi comprovada judicialmente e os três ainda não apresentaram uma declaração de culpa.
O que a Garda afirma ter acontecido
De acordo com as informações apresentadas durante as audiências de fiança no High Court, a suposta operação envolvia o aluguel de 17 imóveis em diferentes partes da Irlanda, que teriam sido utilizados como bordéis.
Nove dos imóveis estavam em Dublin, enquanto outros ficavam em Wexford, Cavan, Laois e Kildare.
O Estado alega que os imóveis foram alugados deliberadamente para facilitar a prostituição organizada, e não como propriedades alugadas de forma independente e sem relação entre si.
Os investigadores também acreditam que alguns dos imóveis tinham ligações com outro grupo criminoso organizado.
A investigação da Garda começou como uma apuração relacionada ao tráfico de pessoas e à prostituição organizada e posteriormente passou a incluir acusações de manutenção de bordéis, lavagem de dinheiro e uso de instrumento falso.
Quase €3,5 milhões em supostos recursos criminosos
A parte financeira da investigação está no centro das acusações.
Os três são acusados de possuir quantias substanciais que representariam recursos provenientes de atividades criminosas:
| Acusado | Valor alegado |
|---|---|
| Matheus Berberick | €2,3 milhões |
| Maria Berberick | €479.000 |
| Sander de Silva Pereira | €721.000 |
| Total | Quase €3,5 milhões |
O Estado alega que o dinheiro foi movimentado através de uma complexa rede de contas e empresas.
Um contador forense que examinou empresas ligadas a dois dos homens constatou que as empresas não tinham funcionários nem registros de declarações de IVA, segundo foi apresentado ao High Court.
A acusação afirma que as empresas aparentavam ser legítimas, mas estariam sendo utilizadas como parte de uma operação sofisticada e extensa de lavagem de dinheiro.
As supostas infrações teriam ocorrido entre 1º de março de 2023 e 10 de agosto de 2026.
A suposta rede de prostituição
O tribunal ouviu que os imóveis estariam sendo utilizados por profissionais do sexo, com os investigadores descrevendo as mulheres envolvidas como pessoas provenientes de condições socioeconômicas vulneráveis.
A investigação também envolve acusações de tráfico de pessoas, embora os papéis individuais dos três acusados em relação a essas alegações ainda precisem ser estabelecidos durante o processo.
A Garda identificou 40 testemunhas e reuniu 801 peças de evidência como parte da investigação.
Mensagens do WhatsApp também fazem parte das evidências coletadas.
Como a investigação se desenvolveu
A investigação foi conduzida por unidades especializadas do Garda National Protective Services Bureau, que atua em áreas como tráfico de pessoas e prostituição organizada.
O detetive sargento Michael McGrath informou ao tribunal que a investigação havia evoluído para uma grande operação envolvendo os três acusados e um suposto grupo criminoso organizado.
A Garda descreveu os acusados como “peças essenciais” do que os investigadores chamaram de “grupo criminoso organizado Berberick”.
A tese do Estado é que os três desempenhavam funções dentro de uma operação envolvendo imóveis, transações financeiras e processamento de supostos recursos provenientes de atividades criminosas.
No entanto, os papéis exatos atribuídos a cada acusado ainda serão analisados no decorrer do processo judicial.
O histórico migratório na Irlanda
O tribunal também ouviu informações sobre o histórico migratório dos acusados na Irlanda.
Durante a audiência de fiança, foi informado que eles estavam em situação migratória irregular e haviam sido submetidos a processos de deportação depois de serem encontrados no Estado em 2018. Mesmo assim, permaneceram na Irlanda.
Em 2022, Matheus Berberick apresentou uma solicitação através do programa destinado a migrantes sem documentação e posteriormente recebeu permissão Stamp 4 para permanecer na Irlanda.
O Estado alega que os crimes pelos quais ele agora responde teriam ocorrido depois que essa permissão foi concedida.
As informações públicas disponíveis nos tribunais não estabelecem em quais cidades ou estados do Brasil os três nasceram ou viviam, nem existem informações confiáveis sobre seus empregos ou histórico familiar antes de chegarem à Irlanda.
Por que eles estão enfrentando acusações de crime organizado?
Os três foram acusados de contribuir para o fortalecimento de uma organização criminosa, além de várias acusações relacionadas à posse de recursos provenientes de atividades criminosas.
A acusação de contribuir para o fortalecimento de uma organização criminosa pode resultar em uma pena máxima de 15 anos de prisão.
Maria Berberick também enfrenta uma acusação adicional relacionada ao uso de um documento de identidade falso como instrumento falso.
Quando foram formalmente acusados, a Garda informou ao District Court que nenhum dos três apresentou uma resposta às acusações.
Por que dois deles tiveram a fiança negada?
Como as acusações envolvem crime organizado, os pedidos de fiança foram analisados pelo High Court.
O Estado argumentou que os acusados apresentavam um risco significativo de fuga, apontando, entre outros fatores, para seu histórico migratório e a gravidade das acusações.
A juíza Siobhán Lankford recusou a fiança de Matheus e Maria Berberick, considerando que os dois apresentavam risco de fuga.
Pereira recebeu fiança depois que a juíza considerou que o caso contra ele não era tão forte. Ele teve que apresentar uma garantia independente de €9.000 e cumprir determinadas condições.
O que diz a defesa?
A defesa contestou alguns aspectos do caso apresentado pelo Estado.
Os advogados de Matheus e Maria Berberick destacaram que nenhum dos dois irmãos foi acusado de manter um bordel.
A defesa também informou ao tribunal que os irmãos haviam fornecido à Garda explicações sobre suas respectivas funções.
As acusações contra os três ainda não foram testadas judicialmente.
O que acontece agora?
O processo continua nos tribunais irlandeses, com os acusados enfrentando acusações graves decorrentes de uma investigação que, segundo a Garda, revelou uma extensa rede criminosa.
A dimensão da investigação já ficou evidente pelas informações apresentadas ao tribunal: 17 imóveis, quase €3,5 milhões em supostos recursos criminosos, 40 testemunhas e 801 peças de evidência.
O caso deverá retornar ao tribunal, onde novas evidências e argumentos jurídicos serão analisados.
Os três acusados continuam legalmente protegidos pela presunção de inocência até que sejam considerados culpados por um tribunal.
