Embora figuras como a rainha pirata Grace O’Malley ou a revolucionária política Constance Markievicz costumem roubar os holofotes históricos, a história irlandesa está repleta de mulheres brilhantes, complexas e visionárias. Elas deixaram uma marca incrível na ciência, na sociedade e nas artes, mas continuam sendo pouco conhecidas fora dos círculos acadêmicos. Conheça cinco mulheres fascinantes do passado da Irlanda que merecem mais destaque.
A “Computadora” de Donegal que Impulsionou a Era Tecnológica
Kay McNulty Mauchly Antonelli (1921–2006)
Nascida em um pequeno vilarejo de língua irlandesa em County Donegal, Kay McNulty emigrou para os Estados Unidos ainda criança. Excelente em matemática, ela foi contratada pelas forças armadas americanas durante a Segunda Guerra Mundial para calcular trajetórias balísticas manualmente.
Em 1945, foi selecionada como uma das seis programadoras originais do ENIAC, o primeiro computador eletrônico de uso geral do mundo. Na época, não existiam linguagens de programação ou manuais; Kay e suas colegas precisavam estudar os circuitos elétricos físicos e diagramas da máquina para descobrir como fazê-la funcionar. Quando o ENIAC foi apresentado ao público, os engenheiros homens receberam os créditos, enquanto as mulheres que o fizeram funcionar foram amplamente ignoradas. O trabalho pioneiro de Kay no desenvolvimento de software só foi formalmente reconhecido décadas mais tarde.
O Oskar Schindler Irlandês
Mary Elmes (1908–2002)
Mary Elmes nasceu em Cork, formou-se com distinção na Trinity College e atuou como trabalhadora humanitária. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou com o Comitê de Serviço dos Amigos Americanos (uma organização Quaker) na França de Vichy, coordenando os esforços de socorro para pessoas deslocadas.
Quando as autoridades nazistas começaram a deportar judeus dos campos de internamento franceses para os campos de concentração no leste, Elmes arriscou a vida para agir. Ela usou seu próprio veículo, documentos falsificados e uma rede de casas seguras para contrabandear centenas de crianças judias para fora do campo de Rivesaltes, salvando-as de uma morte quase certa. Foi presa pela Gestapo e mantida encarcerada por vários meses, mas se recusou a interromper suas atividades humanitárias após ser libertada. Hoje, ela é a única cidadã irlandesa honrada como “Justa entre as Nações” pelo memorial Yad Vashem.
A Aviadora Audaz
Lady Mary Heath / Sophie Peirce-Evans (1896–1939)
Nascida em Limerick, Sophie Peirce-Evans teve uma vida que mais parece um romance de aventura. Antes de ganhar os céus, foi mensageira de motocicleta na Primeira Guerra Mundial, uma atleta de destaque, pioneira do atletismo feminino e autora do principal livro técnico sobre o assunto na época.
Ao adotar o nome de Lady Mary Heath, ingressou na aviação e se tornou a primeira mulher a obter uma licença de piloto comercial na Grã-Bretanha. Em 1928, alcançou fama global ao se tornar a primeira pessoa — independentemente do gênero — a voar solo em um avião de cabine aberta da Cidade do Cabo a Londres, uma jornada extenuante de mais de 14 mil quilômetros. Ela foi uma grande celebridade internacional no final dos anos 1920, promovendo ativamente a segurança e o futuro da aviação comercial, embora seu legado tenha sido ofuscado por um grave acidente posterior e uma morte precoce.
As Forças Criativas do Renascimento Céltico
As Irmãs Yeats: Lily (1866–1949) e Lolly (1868–1940)
Os livros de história frequentemente elogiam o poeta W.B. Yeats e seu irmão artista Jack B. Yeats, mas suas irmãs, Susan “Lily” e Elizabeth “Lolly” Yeats, foram figuras centrais no movimento Arts and Crafts na Irlanda.
Especialistas em bordado e tipografia, as irmãs cofundaram a Dun Emer Industries (mais tarde Cuala Industries), uma cooperativa de artesanato totalmente feminina localizada próxima a Dublin. Lolly liderava a Cuala Press, tornando-se a primeira mulher na Irlanda a operar uma prensa tipográfica. Ela publicou obras de seu irmão William, de Patrick Pearse e de Ezra Pound, ajudando a estabelecer a identidade visual da literatura irlandesa moderna. Já Lily era uma mestre do bordado, cujas peças têxteis detalhadas eram vendidas internacionalmente. Juntas, geraram emprego sustentável para jovens mulheres irlandesas e provaram que a arte poderia ser uma força econômica viável para o país.
A Sobrevivente do Primeiro Julgamento por Bruxaria da Irlanda
Dame Alice Kyteler (c. 1263–após 1324)
Para um mergulho em um período muito mais antigo e sombrio, Dame Alice Kyteler, de Kilkenny, é uma figura intrigante. Ela era uma empresária independente e rica na Irlanda normanda, acumulando uma grande fortuna por meio de suas atividades como comerciante e credora.
Alice casou-se quatro vezes, e cada um de seus maridos ricos morreu em circunstâncias misteriosas, deixando seus bens para ela. Seus enteados, revoltados por terem sido excluídos das heranças, uniram forças com o bispo local de Ossory para acusar Alice de heresia, feitiçaria e envenenamento. Esse episódio se tornou o primeiro julgamento por bruxaria registrado na história da Irlanda. Utilizando suas fortes conexões políticas e imensa riqueza, Alice conseguiu fugir do país em direção à Inglaterra pouco antes do momento em que seria queimada na fogueira. Ela desapareceu dos registros históricos, embora sua criada, Petronella de Meath, tenha sido executada em seu lugar.