Aluguel, Dublin, crise, casal, morando juntos

Em um total de três anos e meio vivendo na Irlanda, eu me mudei de casa onze vezes. Durante o primeiro um ano e meio em Cork, estive em quatro casas. O restante veio depois que me mudei para Dublin. Me disseram que aqui era assim mesmo. Mudanças de casa pareciam uma doença que se contrai sazonalmente.

É muito difícil saber se uma pessoa terá um bom encaixe em um espaço tão íntimo como uma moradia. A gente passa a conhecer todos os maníacos que estão por aí, mas só depois de alguns meses. A princípio, todo mundo parece legal. E eu sinto que faço um péssimo trabalho tentando vender o meu peixe. É possível que eu seja uma das maníacas por circular tanto entre as casas, incapaz de lidar com as peculiaridades malucas exigidas por cada uma delas entre o que se “pode” e “não pode” fazer. Nunca me senti realmente em casa; todos foram locais para ficar temporariamente. Lugares que eu sabia que não poderia desenvolver nenhum apego apesar de tentar ficar o mais confortável possível, e ter a dignidade de um espaço próprio para descanso. No entanto, a situação tem sido tensa. Mas quem se importa, quando a crise de moradia está expulsando famílias para fora de suas casas, e cada vez mais há desabrigados nas ruas tristes, molhadas e frias de Dublin?

“MORADIA É UM DIREITO HUMANO”, ELES DIZEM

Certo. Eu gostaria que landlords/ ladies irlandeses soubessem isso dentro dos seus corações, e que o governo fizesse algo a respeito. ‘Moradia é para suprir uma necessidade humana, não uma ganância’, gritam os manifestantes da organização Dublin Central Housing Action durantes os protestos, já que a situação está beirando o insustentável. Famílias estão sendo empurradas para fora de suas casas para pagar débitos com bancos. Imigrantes compartilham um cômodo entre duas, quatro, cinco ou seis pessoas. Os preços por uma cama de solteiro em um quarto compartilhado custam em torno de 350 a 450 Euros no centro da cidade. Não há direito à privacidade. Você ronca e peida em um quarto com estranhos. Esqueça sua vida sexual. Pessoas estão perdendo as suas casas. Famílias inteiras estão indo morar em abrigos. Pense nisso.

Visitar casas para alugar é uma experiência extremamente competitiva, e as casas são bem ruins. As escolhas não são entre opções decentes e em qual você se encaixa melhor, mas entre quem está disposto a te aceitar como companheiro de casa quando você mais precisa, e o que é menos incômodo com o que está disponível. Temos que escolher entre ficar sem ter pra onde ir ou nos mudar para um quartinho com um armário improvisado dentro de uma parede que mais parece um gabinete onde guardar vassouras e rodos, e que custa 600 Euros mensais; casas centrais, mas com chão desigual, escadarias tortas e carpetes gastos e imundos; morar com o conforto de um supermercado embaixo da sua janela mas ter que aguentar a rua barulhenta e os caminhões dos produtos descarregando a noite toda. Ter que calcular com quantas pessoas você vai ter que competir pelo banheiro quando se está atrasado para ir trabalhar e o companheiro de casa usou toda a água quente do chuveiro, sendo que você vai precisar esperar mais 20 minutos até que possa tomar banho para o boiler esquentar mais água. Torneiras que, se você abrir muito são escaldantes mas, se fechar só um pouquinho ficam congelantes. Mofo em todos os tetos e armários. Cheiro de mofo. Quartos sem janela. Quartos que para serem acessados é preciso cruzar um outro quarto. Salas de estar que foram transformados em quartos para caber mais gente. Landlords que são abusivos e demandam coisas abusivas. Nenhum direito enquanto locatário porque a procura é muito grande e urgente, e não se faz contratos. Você pode sair quando quiser, mas também pode ser expulso sem aviso. Eles querem que os locatários se mudem para renovar o apartamento e aumentar ainda mais o aluguel. São tantas questões e histórias que é difícil listar todas. Creio que todo mundo que já passou meses procurando uma nova casa teve que lidar com umas coisas bem doidas. Minha última casa foi um “hotel”, por exemplo, no qual famílias inteiras dividiam um só cômodo e não pagavam “aluguel”, mas sim “taxa de quarto”. E os moradores eram chamados de hóspedes.

Essa casa foi até uma das melhores em que já estive. O proprietário era dono do prédio todo e não roubou o meu depósito, como acontece tão frequentemente com brasileiros. E a gente tinha até elevador e garagem! A luxúria contextual de coisas deveriam ser garantias óbvias: locais decentes para alugar a preços acessíveis. Eu encorajo vocês a compartilharem as suas histórias mais loucas sobre acomodação. Tenho certeza que há muitas mais do que deveria haver. Ainda assim, consigo ouvir algumas vozes que se levantam para dizer, sendo imigrantes ou não, que se você não está feliz na situação em que se encontra tem a liberdade de ir embora, em vez de lutar pela dignidade que é a vida ser possível aqui e agora. Vocês todos conhecem pessoas assim, eu conheço pessoas assim, pessoas que acreditam que a classe trabalhadora possui “escolhas”. Essas pessoas também são péssimas. Garanto que sonham com se tornar os proprietários do futuro.


Sobre o autor: Alexandra Soares
Alexandra Soares é bacharel em Letras (inglês-português) pela PUC-Rio e tem um mestrado em Women’s Studies (Estudos feministas) pela University College Cork. Nos últimos oito anos ela vive na Europa, experimentando a vida pela perspectiva de uma mulher latinoamericana imigrante e bissexual. Ela já viveu no Brasil, Alemanha, Bélgica e, finalmente, na Irlanda. Ela sente falta de casa, da família e dos amigos. É apaixonada por gatos, astrologia e políticas de gênero e sexuais. Ela canta e compõe músicas para o projeto de eletro-pop SourcebeatS, em Dublin.
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