Aluguel, Dublin, crise, casal, morando juntos

Não é nenhum segredo que acomodações boas e acessíveis em Dublin são difíceis de encontrar. Em uma cidade em que o aluguel de um quarto com cama de casal em uma casa compartilhada custa em torno de 900 Euros, Dublin é uma das cidades europeias mais difíceis para alguém conseguir encontrar e pagar por um lugar para ficar. De acordo com uma estatística publicada em 2018 pela consultancy ECA International, Dublin ocupa o oitavo lugar de cidades europeias mais caras para alugar acomodação. O jornal The Irish Mirror ousou chamar Dublin de “a pior cidade do mundo” para esse fim.

Por esse motivo, observei uma singularidade local: ao compartilhar despesas, casais pagam menos por um aluguel e há uma tendência maior a conseguirem poupar algum dinheiro porque cada um paga pela metade. Desse modo, Dublin parece não ser um lugar ideal para pessoas solteiras e independentes obterem sucesso e serem felizes. Ou ela é feita para casais, ou está empurrando pessoas a se unirem prematuramente. A maior parte das pessoas que eu conheci levando uma vida feliz e estável compartilhavam os custos diários com alguém: um parceiro/a, um amigo/a, um familiar. Muitas pessoas com planos, projetos nos quais gostariam de investir, que podiam viajar e aproveitar o tempo livre tinham dinheiro para gastar porque havia alguém com quem dividir os custos da vida diária.

Foi assim que eu decidi morar junto com um namorado da época, e tive dificuldades de sair rapidamente da casa depois que o relacionamento se tornou abusivo. Tendo que pagar 850 Euros de aluguel por um apartamento do tipo estúdio pode ter me trazido alguma privacidade, mas não trouxe uma qualidade de vida muito boa. Especialmente porque eu tive que compartilhar com outra pessoa com quem a dinâmica de relacionamento ainda não estava muito bem definida. Você ainda não conhece o outro intimamente. Você vai aprendendo conforme vai passando pelas situações. Algumas vezes isso dá certo mas, na minha experiência foi uma série de pequenos desastres. Do momento em que eu perdi o trabalho que eu tinha quando me mudei para aquele estúdio até encontrar um novo trabalho com o qual pagar as contas, e enquanto não me recuperava dos meses e despesas entre esses dois pontos, eu me vi tendo que me apoiar em um cara que tinha muita dificuldade quando o assunto era dinheiro, e que não queria que eu dependesse dele. Eu também não queria depender dele. Inclusive, eu odiava essa ideia, mas o governo nos rotulou como “coabitantes” e se recusou a pagar o auxílio moradia a que eu tinha direito. Depois que perdi o emprego, o relacionamento também foi se deteriorando, assim como o meu estado emocional e minha saúde mental. E eu tampouco podia pagar por apoio psicológico naquele momento. A situação foi se tornando uma espiral de ansiedade. Ele me pressionava para encontrar um novo trabalho, eu ainda estava me recuperando da perda do trabalho anterior, tinha que pagar as contas, as brigas se tornaram constantes e eu não tinha para onde ir. É nesse momento que os seus amigos dizem para você como foi uma ideia ruim ter ido morar com uma pessoa que você mal conhecia. O peso da situação e a pressão só aumentavam.

Com brigas diárias e nós, presos naquele cubículo, o ápice do mal-estar aconteceu durante uma discussão na qual ele ameaçou dar um soco na minha cara. A ameaça não foi verbal, foi um punho fechado que parou a dois centímetros do meu rosto. O landlord quis falar comigo pessoalmente, mas só para se assegurar de que ele não teria problemas futuros com as nossas brigas, e não teria que chamar nem envolver a polícia no hotel dele depois de alguma agressão. Ele estava mais preocupado com os problemas em potencial que ele teria que enfrentar do que com a minha segurança e bem-estar. Além de estar vivendo com o inimigo, a mulher que se sente ameaçada engole muitos sapos vindos das outras pessoas. “Você tem que sair daí, não sabe disso”? É lógico que você sabe, mas as circunstâncias não deixam. Além do que, uma mulher que se recusa a ser submissa é sempre obviamente culpada na visão dos outros. Encurtando uma longa história, essa situação se prolongou por vários meses.

Quando eu pedi aos amigos e conhecidos para me ajudarem a encontrar um lugar para que eu pudesse sair de lá o mais rápido possível, não deu muito certo. Eu sentia como se ninguém me quisesse por perto. Como se eu estivesse marcada pelo abuso e passasse a ser definida por isso, algo que não é nem leve nem divertido, e as pessoas não querem se envolver. Talvez, se eu estivesse em um clima festivo tivesse sido mais fácil encontrar um canto. Todos estavam ocupados, e eram solidários com a sua dor mas tinham as suas próprias coisas a resolver, os seus próprios problemas. E eu entendo isso, e tudo bem, só que ao mesmo tempo não está tudo bem com você, e você também não pediu pelo abuso. Sempre que possível, eu tento me conectar à energia do amor. Eu também prefiro viver uma vida de alegria e satisfação, estar rodeada de amigos amorosos que me apoiam, e poder arcar com as despesas de um lugar só meu. Mas essa não é a realidade da situação financeira e da minha rede social em Dublin e, na cidade, o amor parece escasso. meu ex-namorado e eu decidimos morar juntos para poupar tempo e dinheiro de viagem entre uma casa e outra, e não ter que pagar duplamente por tudo. Por que pagar por dois cômodos, duas compras de mercado e ter dois de cada objeto (vassoura, panelas, etc) se estávamos dormindo juntos todos os dias de qualquer maneira? E isso fez sentido na época, nos estágios iniciais do relacionamento. Mas essas decisões aparentemente racionais foram feitas muito rapidamente, baseadas em detalhes práticos e não apenas no amor ou na nossa interação. E tais situações podem vir a ser custosas emocional e psicologicamente, dreanando a sua energia, apesar de mais baratas. E todo mundo sabe que essas coisas acontecem, você sabe que elas acontecem, mas você nunca espera que elas aconteçam com você quando, na verdade, elas podem acontecer com qualquer pessoa.


Sobre o autor: Alexandra Soares
Alexandra Soares é bacharel em Letras (inglês-português) pela PUC-Rio e tem um mestrado em Women’s Studies (Estudos feministas) pela University College Cork. Nos últimos oito anos ela vive na Europa, experimentando a vida pela perspectiva de uma mulher latinoamericana imigrante e bissexual. Ela já viveu no Brasil, Alemanha, Bélgica e, finalmente, na Irlanda. Ela sente falta de casa, da família e dos amigos. É apaixonada por gatos, astrologia e políticas de gênero e sexuais. Ela canta e compõe músicas para o projeto de eletro-pop SourcebeatS, em Dublin.
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